Conversas

O Dirty Franks, no centro de Philly, está aberto desde os tempos da Lei Seca. É um dive bar como muitos outros: um balcão no centro com os bordos almofadados, booths de vinil encostadas às paredes, luzes de candeeiro quebradas e pequenas luzes coloridas – como as que se põem no Natal –  penduradas pelas paredes e tecto. O Dirty Franks conta também, como é típico nestes bares de bairro, com uma empregada de balcão com ar de quem já viu dias mais felizes e que toda a gente conhece, sempre por detrás do balcão, nunca fora. Pela sua vez, a empregada conhece os nomes de toda a gente, sempre do outro lado do balcão, nunca dentro.

Contudo, ao contrário do que é habitual, no Franks existem centenas de livros espalhados pelo bar (entre outros, existe a colecção completa, e desactualizada, da Enciclopédia Britânica de 1987; Em busca do tempo perdido, de Proust, excepto o último volume, que desapareceu sem deixar rasto; e uma colecção bastante decente de livros do Orwell), assim como desenhos, esboços, rascunhos, poemas, retratos, fotografias (algumas autografadas), cartas, jogos e objectos curiosos, como uma pequena jukebox que insiste em “tocar a tua batida preferida por apenas um dólar!” (“Listen to your favourite sound for just a dollar!”. O Bob & Barbara’s tem um cartaz que rivaliza com o slogan desta jukebox: “Liza Liza, the girl so nice they named her TWICE!!!”). Só não há gatos a dormir em cima das mesas… Claro que, para além de tudo isto, o bar desfruta daquela atmosfera desgastada, escura e manhosa característica dos dive bars e que impõe às visitas a sensação de estarem a fazer algo de clandestino.

Bares como o Dirty Franks, apesar do aspecto decadente e de colocarem constantes dúvidas de segurança e higiene aos clientes mais receosos, são muito populares nos EUA. Em cidades como Philly, por exemplo, estes eram os locais de descompressão preferidos pelos trabalhadores da industria, que tinham por hábito frequentar os bares mais baratos que conseguiam encontrar no bairro onde viviam. Daí que estes bares, bem enraizados no seu nicho próprio dentro da cidade, façam muitas vezes parte do tecido comunitário como fazem, de resto, outras instituições respeitáveis como, por exemplo, a igreja local. Deus pela manhã, cerveja pela noite…

Muitos destes sítios têm também música ao vivo, espectáculos de burlesco,  drag queen shows (são um grande sucesso em Philly), stand up comedy, quizz night, recitais de poesia, divulgação de livros e muito, muito mais. E, mantendo sempre o aspecto meio-clandestino, há bares para todos os gostos: Milkboy, Ferggie’s, McGlinchey’s, McGillins (o mais antigo de Filadélfia e que, enfrentando todas as inspecções possíveis, se mantém aberto desde os tempos da Guerra Civil), Good Dog, Dirty Franks e, claro, Tattooed Mom e Bob & Barbara’s, sobre os quais já tive oportunidade de escrever. Para quem gosta de literatura Beat e lendas como Bob Dylan, Neil Young e, claro, Bruce Springsteen vai encontrar nestes sítios o cenário ideal para ler (ou ouvir) On The Road,  Blowin’ in the wind e Piano Man.

Os dive bars são despretensiosos. São sítios velhos e desgastados que, por estranho que pareça, pretendem manter essa mesma identidade original, contra qualquer tentativa de sofisticação ou modernização ou pretensão hipster. Não são bares underground nem contra-cultura: são só bares locais onde os clientes, habituais ou não, se podem encontrar ao fim do dia, beber uma cerveja em happy hour e conversar.

Por vezes os sítios fazem os hábitos. Assim, um traço muito interessante dos americanos é começarem a conversar com completo desconhecidos ao balcão de um bar. É perfeitamente normal estar-se sentado a beber e a apreciar distraidamente o que se passa e, de repente, a pessoa ao nosso lado nos perguntar como foi o nosso dia ou, mais frequentemente, puxar um qualquer assunto que lhe permita falar do seu dia. É interessante que estas conversas, muitas vezes, não se fixam apenas em banalidades do quotidiano: o desconhecido que acabou de iniciar uma conversa connosco pode decidir contar-nos que está farto do trabalho que faz e que está a pensar mudar de vida, pedir opiniões sobre mudar de casa ou mesmo declarar que “dentro de minutos uma certa pessoa vai passar por aquela porta e as minhas pupilas vão dilatar, o meu coração vai bater mais depressa e eu vou sentir-me a pessoa mais nervosa e mais feliz do mundo”, como me contou, certa vez, um pintor que conheci no McGlinchey’s.

Outro desconhecido de que me recordo começou a tocar flauta durante um concerto no Ferggie’s (a banda adorou a “intromissão”) e acabou por contar que “achava que talvez fosse poeta”: tinha acabado de chegar a Philly, o ponto final de uma caminhada que tinha começado no Missouri. Planeava passar o Inverno em Filadélfia para na Primavera seguir a pé para o Michigan, para visitar a filha. Descobri também que tinha lido Jorge Amado e Saramago e que gostava de conhecer mais poesia portuguesa. Recomendei-lhe Fernando Pessoa.

Como é que os americanos se sentem tão à-vontade para falar sobre estes assuntos com perfeitos desconhecidos? Há várias razões para esta “desinibição”. Em primeiro lugar, um desconhecido tem o potencial de ser um excelente ouvinte: não tem nada de muito melhor para fazer do que beber e ser entretido com uma boa história; como se trata de um desconhecido, é difícil que tenha opiniões morais muito fortes sobre o seu interlocutor. Outra razão deve-se ao constante movimento dos americanos de um bairro para outro, de uma cidade para outra, de um estado para outro, sempre em busca de uma vida melhor. Assim, a probabilidade de ter de se lidar com um tipo qualquer com quem se falou num bar é muito reduzida. No fundo, pode-se ter uma conversa interessante e descomprometida com alguém que está disposto a ouvir e a responder com atenção. Outra razão, talvez a mais interessante, é conversar pelo simples gosto de conversar… E que bom que é conversar!

 

E eis que se faz noite.

Mais uma, por favor. E, então, como é que isso vai?