A cavalo de Vimaranes a Zonggua

Havemos de regressar a este espaço várias vezes, porque este é um daqueles lugares do Minho que nos oferecem algo grandioso: uma janela para a Humanidade inteira. Façam planos, por isso, para passar umas horas no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), na Cidade-Berço.

Na sala #7 do edifício, estão expostas várias peças incontornáveis da colecção de arte antiga chinesa do artista vimaranense José de Guimarães. Hoje, vou dar-vos a conhecer apenas uma. Porquê? Porque, se por um lado, cada um destes objectos encerra em si uma história e um percurso longuíssimos; por outro, eu tenho de ter matéria de escrita para futuros artigos. Por outro lado ainda, pretendo mostrar-vos que o CIAJG é tão inesperadamente rico que merece uma visita apenas para encararmos uma ou outra peça de frente e sobre ela derramar tudo aquilo que ela nos convoca — portais, vórtices abertos para culturas extintas (ou que se modificaram), para geografias nos antípodas, ou fios para teares de Moiras que tecem a tapeçaria comum da história da nossa espécie.

Cavalo em terracota Han

Eh cavalinho! Cavalo em terracota policromada, Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), CIAJG, Guimarães. Foto: CIAJG/Vasco Célio.

O cavalo (馬, mä) em terracota policromada proveniente de um túmulo datado da Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.) conta-nos uma versão fascinante dos primeiros grandes contactos entre a Europa e o Grande Oriente. As conquistas absolutamente extraordinárias de um punhado de gregos macedónios liderados por Alexandre o Grande (cujo amor pelo seu cavalo, aliás, ficou para sempre registado) romperam definitivamente as barreiras anteriores existentes na enorme Eurásia. E antes que me acusem de qualquer coisa — isto é, para todos os efeitos, a Internet — houve, certamente, contactos anteriores, por isso “tirem o cavalinho da chuva”: a História está, na verdade, cheia de viajantes aventureiros calcorreando a pé, a cavalo, a camelo, de liteira e de dromedário pelos orientes e no sentido inverso, desde Xenofonte a visitar a Pérsia, passando por Nicollò e Maffeo Polo, Zheng He, Gan Ying, ou Ibn-Batutta, até ao nosso injustamente esquecido mas intrépido Pêro da Covilhã. Estes foram alguns dos que ficaram registados, mas não tenhamos quaisquer dúvidas de que houve mais, e anteriores, a Xenofonte. Adiante, pois preciso de concluir com isto de que as derrotas do todo-poderoso império persa por um exército de hoplitas e, claro está, de excelentes cavaleiros, constituiu, indubitavelmente, o primeiro acto de globalização digno desse nome.

Os orientais ficaram fascinados com o cavalo europeu. Não se sabe bem quando foi o primeiro contacto dos chineses com o equídeo ocidental, mas ele ganha primazia sobre o seu pequeno parente mongol (Ah! a ironia disto quando pensamos mais tarde em Gengis Khan!) especialmente por esta altura que acabámos de relatar, o que pode indiciar uma forte relação (ainda que especulativa) entre a expansão helénica a oeste e as guerras intermináveis a oriente que ficaram conhecidas como o Período dos Reinos Combatentes. Ora, se assim foi, a introdução do novo ungulado veio a calhar: é que quem detivesse um cavalo maior, mais rápido e mais poderoso, mudava o campo de batalha a seu favor. O rei Wuling de Zhao (340 – 295 a.C.), por exemplo, apercebeu-se muito rapidamente da necessidade de inovar o combate a cavalo e tratou de tornar o equipamento mais leve, e, por consequência, o animal mais móvel e versátil. Por volta de 104 a.C., os chineses han faziam incursões a Fergana, no actual Uzebequistão, onde Alexandre Magno tinha fundado Alexandria (claro está!) Ultima (Ἀλεξάνδρεια Ἐσχάτη), i.e., a mais distante de todas as Alexandrias. Esta cidade, tão longínqua da Pella do seu pai Filipe II, foi, provavelmente, o ponto dos primeiros contactos entre uma civilização europeia a nascer e uma civilização chinesa a resolver-se definitivamente por volta de 130 a.C.. Os han entraram em guerra com Fergana depois de tentarem mercar, sem muito sucesso, seda por cavalos com o longínquo reino; e após estes se terem recusado a oferecer cavalos ao imperador. As campanhas não tiverem muito sucesso, pois muitos animais morriam no caminho para a China. Além disso, não surtiram muito efeito as primeiras tentativas de se criar uma raça estável no Império Han, porventura devido à inexperiência e às diferenças de clima. O propósito destas intervenções militares tão longe para oeste era quase sempre um: capturar aos dayuan, os descendentes dos colonizadores helénicos de Fergana, o máximo que se conseguisse do que os han apelidavam de «cavalos celestiais» que, ainda por cima, «suavam sangue». Quem joga a obra-prima que é o Civilization, de Sid Meier, percebe bem a necessidade de adquirir o recurso «cavalos» bem cedo. Alguns autores vêem nesta sede por equídeos o inaugurar da célebre Rota da Seda, onde se destaca, no seu definitivo estabelecimento, a grande figura do diplomata e explorador Zhang Qian (c. 200 – 113 a.C.), enviado pelo imperador Wu de Han (156 – 87 a.C.) às terras incógnitas do poente.

Anos mais tarde, Ma Yuan (14 – 49 a.C.), general lendário de cavalaria han (gosto de imaginar que provém do seu túmulo a escultura que cá temos em Guimarães…) seria peremptório ao afirmar: «Os cavalos são a pedra-basilar do poder militar, são o grande recurso de um Estado; mas, se isto fraquejar, o Estado vai cair.» Os chineses continuam o seu trabalhoso processo de selecção, reprodução e cruzamento de raças com extrema minúcia, juntando os genes dos velozes quadrúpedes das estepes a ocidente com os mais fortes, resistentes e atarracados primos locais, tornando o cavalo num animal que definitivamente passa a pertencer à China do corpo e à China das ideias com toda a propriedade. A nova mobilidade faz da China dos han um império coeso e governado por um eficaz sistema burocrático e de comunicações que ela doravante permite.

Cavalo Voador de Gansu

Os cavalos fazem a China levantar voo. Este é o absolutamente extraordinário e célebre (para quem liga a estas coisas) Cavalo Voador de Gansu. Devido à sua importância histórica, esta peça está proibida de abandonar a China, pelo que têm de ir até Lanzhou se o quiserem admirar. Mas primeiro, venham até Guimarães ver aquele que cá temos. Bronze, séc. II a.C., Museu da Província de Gansu, República Popular da China.

No entanto, os han não se ficaram só pelo comércio e pela guerra. A sua prosperidade leva-os a um esforço de preocupação patrimonial que o Ocidente só veria no séc. XX: os chineses decidem-se por fazer uma recolha exaustiva da sua cultura em quase todas as áreas, muito antes das listas da UNESCO e dos inventários nacionais de protecção e classificação. Eles sempre nos habituaram, a nós, humildes ocidentais, a serem os primeiros em muita coisa… Para o que nos interessa, de tudo quanto nos chegou, vemos os poetas a louvarem o cavalo, o teatro a honrá-lo, os escultores a darem-lhe forma e os músicos a darem-lhe voz e ritmo. A China clássica emerge bruscamente tal como o enorme dragão Pan-gu, que criou o mundo a partir de um ovo.

Leiamos um poema Fu de cerca de 225 a 25 a.C. (tradução minha do inglês, que eu já não vou a tempo de aprender mandarim e muito menos o chinês clássico dos han…):

Indo e vindo, indo e indo,

para longe de ti, vivermos assim, separados,

dez mil li* e muito mais entre nós,

cada um em extremidades opostas do céu.

A estrada que eu viajo é íngreme e longa;

quem sabe quando nos encontraremos outra vez?

O cavalo no Norte inclina-se na direcção do vento norte;

o pássaro do sul inclina-se nos ramos a sul:

a cada dia a nossa despedida fica mais esquecida;

dia-a-dia o robe e o cinto mais desprendidos.

Nuvens oscilantes bloqueiam o sol branco;

fico como o viajante que não olha, para não ter vontade de voltar.

Pensar em ti faz-me velho;

Anos e meses repentinamente passam.

Abandonado, eu não direi mais nada,

mas arranjarei forças para devorar o meu interior.

*Medida de distância que foi alterando ao longo do tempo, mas que durante a Dinastia Han é hoje calculada em cerca de 415.8m.

É ou não é algo absolutamente deslumbrante? A poesia Fu da Dinastia Han está repleta de alusões ao nobre equídeo e prenhe de uma visão poética sobre a natureza que o Ocidente só encontrará milénio e meio mais tarde, quando à costa sul da China arrojarem os missionários portugueses e italianos. Na música, falaremos mais tarde num outro artigo e já não sobre o cavalo, pois já me estendi muito.

Não é à toa, portanto, que estas referências ao belo quadrúpede apareçam nos túmulos dos grandes senhores: eles ajudariam, em conjunto com as lanternas, à passagem pelas planícies de escuridão do além, e, neles montados, os aristocratas han mostravam a quem os visitasse na morte (os túmulos permaneciam abertos) que tinham sido grandes em vida, e isso era marcado pelo grande número de cavalos que tinham possuído. Só têm de pensar um pouco nos vossos vizinhos do Vale do Ave que coleccionam Porsches e Ferraris, para ficarem com uma ideia aproximada. Há certas coisas que não há geografia ou tempo que as consiga moldar no âmago do Homo Sapiens

Cavaleiro Han

Representação de um garboso cavaleiro han com o seu cavallino rampante criado, muito provavelmente, nas estepes a poente. Uma importação, portanto. Tal como a escultura pertencente ao CIAJG, também esta provém de um túmulo. Os rituais fúnebres dos nobres han envolviam procissões complexas em que a cavalaria representava uma componente de demonstração de poder. Do ponto de vista místico, a montada ajudaria a transportar o senhor no além. Terracota polícroma, Dinastia dos Han Ocidentais, séc. II – I a.C..

Posto tudo isto, resta-me deixar-vos este desafio: visitem o CIAJG e esta escultura em terracota de um cavalo han em particular. Lá, de olhos postos nela, reflictam o quão precioso é termos, mesmo aqui ao nosso lado, estas verdadeiras máquinas do tempo, tão delicadas mas permanentes como o mais belo poema Fu.