Antes que Matem os Elefantes

Fotografia: Paulo Pimenta

Fotografia: Paulo Pimenta

Apesar de se ter passado quase um ano desde a estreia desta peça, a sua actualidade continua — a criação de Olga Roriz mostra-nos como a dança pode ser utilizada para reflectir o mundo, não sucumbindo a valores meramente estéticos — esta é uma criação que faz pensar e repensar a maneira como vemos a guerra.

Um sofá, um frigorífico e pó, muito pó. É tudo o que conseguimos ver.
No escuro, começamos a ouvir relatos de crianças sírias, que entre choros e suspiros nos dão conta de uma realidade que nos parece tão distante. Mas o teatro tem essa capacidade, de aumentar a realidade, e de repente estamos presos àquele momento em que uma criança nos conta os horrores que viveu.
Quando o silêncio se volta a instalar e enquanto recuperamos deste choque uma luz no palco começa a surgir. Um homem no sofá liga um rádio,e só conseguimos ouvir estática. Mesmo sabendo que a peça abordaria a questão da guerra na Síria, nada nos pode preparar para uma imersão tão profunda. O palco está repleto de de destroços e pedras brancas. Cobertores e colchões estão espalhados em todo o lado. Tudo nesta peça causa desconforto, seja o cenário apocalíptico, seja a própria respiração dos intérpretes que nos relembra da nossa inutilidade perante um sofrimento sobre o qual não podemos actuar. Os movimentos, acutilantes, brutos, interrompidos, retratam isso mesmo, as vidas que são constantemente interrompidas pela guerra e que não conseguem voltar ao normal.
O corpo nesta peça, é tratado como um sinal vestigial do que outrora foi vivo — o amontoar de corpos inertes como se fossem cadáveres, é uma tradução literal do que é o quotidiano da guerra. Na criação, o corpo assume vários papéis — o corpo o que luta, o corpo que resiste, o corpo que recusa aceitar derrota e o corpo inerte, que sucumbe ao conflito. A fragilidade do corpo é posta à prova, não só com a fisicalidade da coreografia, mas da integração desta com os elementos cénicos, com as pedras pelas quais os intérpretes são brutalmente atingidos.
A noção de tempo interrompido é permanente durante o espectáculo — seja na separação de um casal, ou no momento em que uma coreografia de grupo é permanentemente interrompida e que os intérpretes tem que voltar atrás e repetir vezes sem conta a mesma frase com o intuito de a completar. Esta é talvez a metáfora mais forte em toda a peça, a forma de como a guerra rouba a normalidade de uma família, de uma casa, de um país, deixando tudo em suspenso, como o pó dos destroços do que resta.