Gravidade não tem gravitas

 

Cá está um dos filmes mais bonitos do ano.  É um filme de animação, como os da Pixar, mas tem a cabeça de Sandra Bullock e do George Clooney para nos fazer pensar que foi mesmo filmado. E que imagens… Aqui vemos a Terra redonda sobre a cabeça dos astronautas e a câmara dá um rodopio e vemos um terço do planeta Terra.

Alfonso Cuáron é mexicano e faz filmes dentro do sistema americano. Ele compreende o sistema, ele percebe que não vão permitir que ele faça o que quiser a menos que garanta retorno, mas também sabe que se ele reunir os ingredientes certos em Hollywood, pode fazer filmes como não é possível em mais lado nenhum. Aqui ele usa três estrelas de cinema, George Clooney, Sandra Bullock e Ed Harris (presente em voz apenas) para justificar um filme que me parece injustificável numa reunião de tubarões de Hollywood. Não consigo imaginar a quantidade de reuniões em que tentaram explicar como um filme com um actor só perdido no espaço podia fazer dinheiro. E não consigo imaginar quem é que disse “sim, isso… faz perfeito sentido!”.

Sobre a estética de Cuáron, sim, ele usa planos imensamente longos e sim, o filme foi um dos maiores desafios técnicos da última década. O filme vale a pena ver só pelas ideia. Se há uma coisa que me incomoda neste filme são as estrelas. Que maravilhoso seria conseguir ter aqui dois novatos com quem não teríamos expectativas ou bagagem. Mas se vamos fazer um filme de 100 milhões de doláres sobre um actor só, precisamos da maior estrela do mundo e neste momento a maior estrela do mundo é Sandra Bullock. O casting de Bullock parece um erro. Bullock é uma actriz fria com cara de miúda-de-40-anos que já fez muito bom trabalho mas aqui parece estar mais longe do que lhe está a acontecer do que nós (do outro lado do ecrã). Na cara dela nada tem peso, são tudo emoções em gravidade zero. Em outros filmes isto resulta, mas aqui parece que a Dra. Stone tomou uma dose cavalar de antidepressivos. E há ocasiões em que parece que embora a NASA não mande ninguém lá para cima sem muito treino, a Dra. Stone foi enviada porque tem muita sorte.

George Clooney, em comparação, resulta. Ele constrói uma personagem completa através de uma ou duas sequências, e quando ele volta de uma ausência longa, eu quis que o filme fosse com ele e não com a Dra. Stone.

Para estragar o fim do filme (se não viram ainda não leiam mais) eu preferia ver o Kowalski a morrer do que a Dra. Stone a sobreviver. Ele deve ter morrido a cantar uma canção porca ou uma história estúpida, enquanto entrava a queimar na atmosfera. Que morte! A Dra. Stone sobrevive, mas quando ela tenta cometer suicídio, acho que estava a fazer a coisa certa.

Vale a pena ver, mas não posso dizer muito mais que isso.