Vamos querer ver em Coura: as nossas apostas

At the Drive-in sobem ao palco Vodafone no dia 17 de Agosto

Na 25ª edição, o festival Paredes de Coura não tem um cabeça de cartaz absolutíssimo como teve, há um ano, com LCD Soundsystem. Tem, no entanto, uma programação mais equilibrada em cada um dos dias, com nomes consagrados e capazes de cativar um público massivo, conjugados com apostas mais arriscadas e bandas de que vamos continuar a ouvir falar – como é timbre do festival. No final de contas, as propostas de 2017 parecem ser capazes de nos fazer chegar ao final dos quatro dias de barriga cheia de bons concertos.
Talvez a edição 2017 nos ajude a perceber fenómenos como Car Seat Hedrest – que ninguém nos tira da cabeça que são uma banda autorizada a gravar material descartado pelos melhores Strokes – ou King Krule. Esta será também a oportunidade de nos reencontramos com gente muito apreciada como Beach House, Ty Segall ou Benjamin Clementine. Mas à partida para o festival estes são os cinco concertos que vamos com maiores expectativas em ver.

Kate Tempest

Um dos grandes momentos do festival Paredes de Coura no ano passado foi protagonizado por um par de ingleses de Nottingham, para quem um placo que era fisicamente grande em demasia, mas fazia-se pequeno face ao poder da mensagem que traziam. A revolta transformada em palavras duras dos Sleaford Mods parece ter, neste ano, uma continuação previsível no concerto de Kate Tempest, agendado para o dia de abertura do festival, a 16 de Agosto (palco Vodafone, 1h55). Desta vez, em vez de um par de operários no Norte, temos uma intelectual da City. Kate Tempest é uma das poetisas mais promissoras da nova geração britânica. É também dramaturga, romancista e professora universitária. E uma das mais inquietantes vozes do país do Brexit, autora de Everybody Down(2014), nomeado para os Mercury Prize, e Let Them Eat Chaos (2016): dois murros na mesa de uma geração acossada pelas consequências da crise financeira, do capitalismo selvagem e do chauvinismo da Little Britain.

At the Drive In

Paredes de Coura, 2008. Um furacão em palco que dá pelo nome de The Mars Volta dá-nos um soco no estômago. E depois outro, um pouco mais abaixo. Durante uma certa de hora fomos repetidamente sovados e no fim levantamos a cabeça com uma certeza: esse era um dos concertos da nossa vida. Os The Mars Volta foram uma descarga de adrenalina rock sobre palco na margem do Taboão, uma masterclass de psicadelismo, antes de o psicadelismo ter sido descoberto pelos hipsters. Os The Mars Volta eram também a banda criada em 2001 por Omar Rodriguez-Lopez e Cédric Bixler-Zavala depois de terem terminado os At the Drive In, uma banda fundamental da música independente norte-americana dos anos 1990 e grandes senhores do pós-hardocre. Este ano, os míticos texanos de El Paso regressaram a estúdio, gravando “in·ter a·li·a”, o primeiro álbum em 17 anos, que teremos a felicidade de ver ao vivo no Minho, com a promessa de uma descarga de energia tão forte como a de há nove anos. Sobem ao palco Vodafone a 17 de Agosto (23h15).

Timber Timbre

Apenas nos últimos anos, depois de “Hot Dreams” (2014), nomeado para os Polaris Music Prize, se começou a prestar devida atenção aos Timber Timbre, canadianos de percurso sólidos, com seis álbuns de estúdio lançados desde 2006 e uma capacidade de fazer canções sobre almas torturadas e os pedaços mais escuros da existência com a elegância que só o folk e a soul parecem capazes de transmitir a uma canção. O seu mais recente trabalho “Sincerely, Future Pollution”, lançado em Abril deste ano, confirma-os como uma banda ímpar na capacidade de fazerem entrar luz nos momentos mais negros. A dúvida que se coloca é se serão capazes de transpor para o palco (Vodafone FM, 17 de Agosto, 20h30) de um grande festival uma sonoridade que parece desejar, acima de tudo, intimismo. Já vimos isso acontecer em Coura, mas também o seu contrário.

Badbadnotgood

“IV”, o quarto álbum dos canadianos badbadnotgood, foi um dos melhores discos de 2016 e isso não é dizer pouco. O cruzamento que propõem desde 2011 começa no jazz, território de formação do trio base da banda (Matthew Tavares, Alexander Sowinski e Chester Hansen), mas passa também pelo hip-hop e a eletrónica, que andaram a ouvir ou não fossem rapazes nascidos nos 1990’s. O seu trabalho recebeu finalmente um reconhecimento internacional transversal para lá das fronteiras do hip-hop norte-americano com “IV”, mercê talvez do acréscimo do saxofonista Leland Whitty e uma incursão aos territórios da soul, sublinhado pelo contributo de Sam Herring (dos Future Islands, que também tocam em Paredes de Coura, no dia 16) no excelente single “Time Moves Slow”. Vamos poder vê-lo no Palco Vodafone no dia 18 de Agosto (22h30).

Cave Story

Se há festival que nunca teve vergonha em programar bandas portuguesas para os seus palcos principais foi Paredes de Coura. Nos últimos três anos, essa atenção à música nacional ganhou um novo foco, por mérito de quem programa o festival, mas também pelo momento especialmente criativo que se tive no país. Das escolhas nacionais deste ano, vamos com particular curiosidade em relação a Cave Story. Justamente escolhidos para o cartaz, já que “West” foi o melhor disco nacional do ano passado, sabemos também que o trio das Caldas da Rainha (Gonçalo Formiga, Pedro Zina e Ricardo Mendes) é senhor de uma força entusiasmante ao vivo, como comprovamos, por exemplo, no Quintanilha Rock, em Bragança, no ano passado, e, na semana passada, no L’Agosto, em Guimarães. Serão eles capazes de surpreender agora num festival grande? Esperamos para ver no palco Vodafone FM, no dia 18, às 18h00.