Os mistérios das vozes segundo Tim Hecker

TIm-Hecker-Love-Streams

Em 2014, o disco Virgins, figurava na long list do Polaris Music Prize – os prémios distribuídos aos músicos canadianos. Nesse mesmo ano, o disco ficaria fora da short list, que seria encabeçada por Animism, de Tanya Tagaq. Antes, na mesma listagem, mas referente a 2009, o disco An Imaginary Country, aparecia igualmente na lista dos melhores discos feitos no Canadá, segundo um júri composto por programadores, divulgadores e jornalistas de música. O mesmo viria a acontecer em 2011, com o disco Riverdeath, 1972.

A lista da discografia de Tim Hecker começou na viragem para o novo milénio, altura em que lança Haunt Me Haunt Me, Do It Again, em 2001, depois de se ter apresentado por breves momentos como Jetone, explorando aqui territórios da música do techno. Nessa mesma altura, Hecker consolidava a sua carreira como produtor, com um profícua existência discográfica.

Tim Hecker é tido hoje como uma referência na manipulação de texturas sonoras, que são trabalhadas a partir de uma desconstrução formal dos sons, com recurso a ferramentas electrónicas e que são depois remisturadas. Resulta daí uma densidade sonora que é hoje uma característica do músico, mas que outros artistas vêm explorando, como é o caso de Björk, particularmente no último disco Vulnicura. Além disso, o compositor tem-se dedicado formalmente ao estudo do barulho dos sons do quotidiano.

Já este ano, é lançado Love Streams pela histórica 4AD. Tal como em trabalhos anteriores, Tim Hecker desconstrói pré-existências, baralha e reutiliza. Neste disco, a música coral dos séculos XV e XVI é o ponto de partida, a matéria-prima para a construção dos seus cenários sonoros. Tim Hecker é uma espécie de cubista na forma conceptual como constrói as suas redes sonoras reticuladas.

Em 2015, Tim Hecker chegou a estar escalonado para o Semibreve, mas o concerto acabou por ser cancelado. O concerto de segunda, 9, no GNRation, é, por isso, há muito aguardado na cidade. Nesta ocasião, há motivos acrescidos para não querer perder este concerto. O novo disco contou com a colaboração do compositor islandês Jóhann Jóhannsson e as vozes foram gravadas pelo Icelandic Choir Ensemble. Ben Frost, que esteve em Braga não vai há muito tempo, foi um dos produtores do disco.

Depois de ter sido nomeado para o Polaris Music Prize, mas nunca tendo conseguido chegar à short list final, será provável que com Love Streams tal possa vir a acontecer. O disco tem surgido com excelentes críticas e é colocado como um dos melhores títulos publicados em 2016, segundo algumas das publicações de referência – “a masterpiece of contemporary composition and of emotional sensitivity”, escreveu Rob Arcand, em The Quietus; “music that feels alive, that is successful on both a physical and mental level”, segundo Benjamin Bland no Drowned in Sound.