Chris Eckman e a Melodia do Acaso

harney-county-chris-eckman-12-copyPor um lado, se os nossos irmãos não nos forçavam a ouvir discos dos The Walkabouts na única aparelhagem da casa, ou se não tínhamos acesso aos jornais Blitz, temos desculpa para não conhecermos Chris Eckman, vocalista e compositor dos históricos Walkabouts. Por outro lado, na era da internet, onde com um clique no YouTube e o digitar de duas palavras na caixa de pesquisa se descobre rapidamente um artista, não temos qualquer desculpa para não conhecermos Chris Eckman.

Eckman é o americano que vem de longe para estar na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão (12 horas de viagem e 37 horas sem dormir segundo o próprio), com paisagens de cidades gigantes americanas praticamente desabitadas, com contos de migrantes que dão à costa na esperança de uma nova vida e com poesias de poetas eslovenos. Por acaso, Eckman traz também uma viola negra nas mãos, e uma companhia chamada Ziga Galeb no contrabaixo.

É um cantautor que caminha sem medo nas ruas mais estreitas e sombrias da vida. Por outro acaso milagroso, Eckman tem uma voz quente, que ilumina as mesmas ruas desertas e que vagueia em ondas pelo espaço do Café Concerto.

Entre o público há quem abra a boca e cante em silêncio as letras de Eckman como se fosse o próprio autor e dono das músicas. Mas há também quem bata palmas antes das músicas acabarem, ou seja, há quem conheça Eckman e adore e há quem descubra Eckman e que também adore. São coisas do acaso.

Entre temas do seu álbum de estreia a solo “A Janela”, como “Fadista”, e temas do mais recente disco “Harney County”, como “Nothing Left to Hate”, Eckman faz confissões aos presentes como por exemplo amar mais a cidade de Lisboa onde já morou do que propriamente a namorada lisboeta da altura. E aqui surge mais uma razão para conhecermos Eckman: ele é o tipo porreiro com o qual talvez já nos tenhamos cruzado no Bairro Alto.

Com temas inéditos (nada dos Walkabouts) cantados com uma voz metade rouca, metade narração, Eckman é um homem que por outro mero acaso sabe contar histórias e encantar o público ao fim de poucos minutos. Uma hora e um quarto de concerto depois, ainda parece que passaram apenas poucos minutos.

Alguns defendem que nada acontece por acaso enquanto outros dizem que no acaso é que se devem ler as mensagens. A verdade é que, mais cedo ou mais tarde, o acaso vai nos levar a conhecer Chris Eckman e ao acaso vamos ficar agradecidos.