Bons Sons: um festival de raiz

Foto Paulo Dumas

Foto Paulo Dumas

Quando uma multidão se junta à volta de um bombo, a seguir o ritmo da vibração das peles, sugere-se-nos uma reflexão que nos leva à origem do que nos trouxe aqui – quarenta mil pessoas (os dados ainda não são oficiais), que se juntam para celebrar a música e para viver a experiência de se reencontrar como povo.

Sobre essa origem fundamental, apenas seremos capazes de especular: qual terá sido o movimento definidor daquilo a que hoje chamamos música que, antes de música, seria apenas ritmo. Como terá sido aquele momento em que alguém, nos primórdios na nossa existência, terá reparado que uma pele esticada produzia uma vibração, que por sua vez ressoava. Aquele momento em que uma linha esticada produzia um som.

De que forma teremos percebido que o ritmo embala o movimento do corpo e de que forma isso terá originado a dança, a comunhão e os rituais. Hoje existe uma miríade de rituais e um concerto não deixa de ser um ritual colectivo, em que por vezes um único músico consegue induzir estímulos, que impelem quem ouve a estados de espírito colectivos e celebratórios.

Toda esta reflexão vem a propósito de duas apresentações no segundo e no terceiro dias do festival Bons Sons, que decorre até segunda-feira, 15, em Cem Soldos, Tomar. Uma delas foi a de Tiago Pereira, que se apresentou sozinho no adro da igreja acompanhado do seu bombo. Conhecêmo-lo da série documental realizada pelo seu homónimo, Tiago Pereira. Primeiro nos vídeos de “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria” e depois no segundo episódio de “O Povo Que Ainda Canta”, que passou na RTP e que deu agora origem a um livro reunindo todos DVDs com os episódios da série (edição Tradisom).

O segundo momento foi com o quarteto de bateristas e percursionistas José Salgueiro, Alexandre Frazão, Bruno Pedroso e Marco Franco, que fizeram tudo por uma linha. Os Tim Tim por Tim Tum, novamente no adro da igreja de Cem Soldos, improvisaram, dançaram e poder-se-á dizer que até fizeram alguma mímica à mistura. O resultado foi, mais uma vez, um regresso à origem disto tudo, isto é, por que raio nos juntamos para ver alguém tocar e sentimos um enorme prazer nisso, uma comunhão imensa.

Nesta altura, é evidente para todos que o festival de Cem Soldos não é um festival qualquer. Existe um ambiente familiar, como se todos se conhecessem. Duas raparigas, enquanto aguardavam pacientemente na fila das senhas das bebidas, diziam uma para a outra que ali a simpatia era induzida e espalhada: “Aqui as pessoas são tão simpáticas, que só conseguimos responder com mais simpatia”. Talvez seja assim que se dissemina o ambiente existente em Cem Soldos por estes dias. Talvez por a aldeia ser pequena, as pessoas se liguem mais umas às outras, tornando-se esta, por um vislumbre, na aldeia global que tantos idealizaram.

Os dois dias do meio do Bons Sons foram feitos de excelentes momentos musicais. Grutera apresentou um dos momentos mais emotivos destes dias. No Palco Giacometti, agradeceu ao público que assistia, por ouvirem e apoiarem a música portuguesa. Agradeceu a existência do Bons Sons por ser o festival que não tem receio de juntar as várias músicas portuguesas que se fazem na actualidade: “este é o festival mais bonito”, disse antes de se despedir. O guitarrista Guilherme Efe irá retirar-se e esta terá sido a última apresentação de Grutera.

No mesmo palco, ao terceiro dia, Isaura espalhou magia e, pela primeira vez, a plateia levantou-se para assistir deixando o Largo de S. Pedro a abarrotar. O duo Lavoisier, Cristina Branco e Deolinda foram contagiantes. André Barros, enterneceu em duas sessões no escaldante auditório da Casa do Povo. Os Dear Telephone foram um regresso saudado (disco novo vem a caminho). Carminho encantou com o Largo do Rossio à pinha de gente. Referência obrigatória para o concerto de Keep Razors Sharp que, juntamente com os White House, encheram o recinto do Palco Eira.

Henrique Amaro, radialista e um dos maiores divulgadores da música de expressão portuguesa, referia no documentário “Auto-Rádio”, que foi apresentado no primeiro dia do festival, que Portugal e a sua música se tinham reencontrado com a sua história, com as suas raízes. Muitos temas que eram tabu, deixaram de o ser, diz ainda. Há uma nova geração que procura avidamente referências que estavam perdidas, escondidas ou esquecidas algures. Essa constatação de Henrique Amaro tem no Bons Sons uma das suas maiores evidências.