As Flores da Guerra, de Zhang Yimou

As Flores da Guerra, de Zhang Yimou, é mais uma antestreia a não perder, a 29 de julho (este domingo), no São Mamede. Para quem não saiba, Zhang Yimou já foi uma das grandes esperanças do cinema chinês.  Depois perdeu-se um bocado, mas quem não viu o clássico “Ju Dou”” não sabe o que perde, daquilo que se não perdeu.

Em Nanking, a antiga capital chinesa, em 1937, um grupo de prostitutas (cortesãs, queria eu dizer) e crianças procuram abrigo numa igreja onde um malandreco, ocidental,  tomando as vestes de sacerdote, as pretende salvar de um dos mais bárbaros massacres perpetuados pelo Eixo do Mal. O “sacerdote” é interpretado por Christian Bale, o menino do “Império do Sol” de Spielberg que, crescido, andou a salvar Gotham City de troikas psicopatas. As chinesas, de nomes menos conhecidos, mas tão fáceis de decorar, como a protagonista, Ni Ni de seu nome, prometem aquilo que Yimou pode muito bem dar, banhado nos vermelhos e dourados brilhantes da fotografia de Xiaoding Zhao, doses imoderadas de melodrama, epopeia e erotismo asiático (não incluo no erotismo as bem prováveis cenas de violação). Dizem que também com um bocado de propaganda política, mas quanto a isso gostava que me indicassem um filme que não seja propaganda política. É assim desde Eisenstein e é assim mesmo que tem de ser. Ou lá por ser propaganda chinesa tem de se partir logo do princípio que tem, necessariamente, a afamada qualidade da indústria deste país?…


No site dos tomates podres, o filme tem a triste nota de 41%, mas isso é coisa de críticos que têm comichão a alguns lugares comuns que, de facto, podem contaminar o filme com alguma psoríase – o mais óbvio de todos é a estafada e moralmente obtusa personagem do Mighty White Man, o escroque ocidental que chega e salva os indígenas, ou melhor, as indígenas. Curiosamente, é facto histórico que no massacre Nanking houve, de facto um herói europeu que salvou da morte e das violações em grupo cerca de 250 000 pessoas. Chamava-se John Rabe. E era Nazi. Engraçados, estes percalços improváveis. Ou talvez não. Mais misteriosa é a nossa tendência para, sabendo bem como somos complicados por dentro, julgarmos que os outros são mais facilmente categorizáveis.